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Mátéria integral da edição impressa da revista POVOS nº 7

A Nova Era no Brasil

Texto por Paulo Romeiro, da AGIR

Nova Era é um termo usado para retratar a crescente penetração do misticismo oriental e ocultista na cultura ocidental. A expressão “nova era” se refere à Era de Aquário, na qual os ocultistas acreditam estar entrando, trazendo consigo um período de iluminação e paz. O movimento desafia a fé cristã ao promover uma grande variedade de crenças e práticas do ocultismo, incluindo a reencarnação, a astrologia e toda sorte de adivinhação.
Certo estudioso do assunto acrescenta: “O movimento Nova Era é uma rede extremamente ampla, frouxamente estruturada, de organizações e indivíduos ligados por valores comuns (baseados no misticismo e no modismo — a cosmovisão de que ‘tudo é um’) e uma visão comum (uma ‘nova era’ vindoura, de paz e iluminação em massa, a Era de Aquário)”.      


Por se tratar de um país obcecado pelo sobrenatural, os ensinos da Nova Era têm encontrado um terreno fértil em vários segmentos da sociedade brasileira. Há muita gente em nosso país disposta a crer em qualquer coisa, desde que, aparentemente, funcione, sem qualquer questionamento. Num excelente artigo intitulado “Chega de charlatanismo”, publicado pela revista Veja, a psicóloga Vanessa Gesser de Miranda, de Florianópolis, esclarece:
A sociedade brasileira está mergulhada na maior onda de irracionalidade de que se tem notícia. Há uma curiosa necessidade de acreditar em tudo aquilo que se apresenta como uma solução mágica para os problemas. Uma atração irresistível para a alternativa mais imediata, mais fácil, a qual se aceita independentemente de uma análise de seus resultados reais. Assim é com a política, com a economia, com a medicina e a psicologia. Acredita-se em anjos, gnomos, gurus, pedras, flores, magos, bruxas, horóscopo, tarô, runas e pirâmides.     
Virou moda também, em muitas empresas hoje no Brasil, selecionar candidatos por meio da astrologia, numerologia e grafologia, substituindo, assim, os tradicionais exames psicotécnicos e entrevistas. Apesar de toda essa febre esotérica no mundo empresarial, esses métodos místicos não possuem fundamento científico. Veja o que diz o jornal Folha de São Paulo:
Apesar de toda “embalagem científica” que muitos métodos alternativos se revestem para ganhar credibilidade, nenhum deles é aceito pela comunidade científica. “A astrologia não se baseia nos procedimentos usuais das ciências físicas”, afirma Ildeu de Castro Moreira, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para o professor de lógica da USP, Luiz Barco, 53 anos, a numerologia não é comprovada. “Não se pode afirmar que conhecer a personalidade pela data de nascimento seja científico”.            
A mídia brasileira tem propagado, em grande escala, as idéias da Nova Era. Quase toda semana as revistas seculares trazem alguma reportagem relacionada ao assunto. Há novelas que foram ao ar a alguns anos como Mandala, Vamp, Renascer, Carmem, e outras atuais como O Profeta e Páginas da Vida debatem sobre reencarnação, comunicação com os mortos e misticismo. Nem as crianças são poupadas. Revistas infantis e programas de desenhos animados na TV estão infestados dos conceitos da Nova Era. As revistas Ano Zero e Planeta são as que mais se destacam entre as várias publicações ligadas a esse movimento.
           
Os astros da Nova Era
Um dos nomes mais conhecidos no Brasil é o Lauro Trevisan, padre católico de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Tem produzido muitos livros que promovem os ensinos do movimento Nova Era, tais como: Os poderes de Jesus Cristo, Aquarius, A Nova Era chegou, A vida é uma festa e Jesus, precursor e anunciador da Nova Era. As interpretações bíblicas de Lauro Trevisan, tentando encaixar o Senhor Jesus no programa da Nova Era, não refletem uma boa exegese. Uma de suas afirmações que não podemos concordar é que Jesus se tornou o Cristo aos trinta anos, no batismo de João. Trevisan declara:
Lucas narra que, ao receber o batismo de João, desceu o Espírito Santo sobre Jesus, em forma corpórea de uma pomba, e do céu veio uma voz: “Tu és meu Filho bem-amado; eu, hoje, te gerei” (Lc 3.21,22). Neste momento, era gerado o Cristo, o Filho de Deus. A partir desse instante, já não era mais apenas o Jesus. Era o Cristo, o Iluminado, o Messias, o Salvador.           
Ao contrário do que diz Trevisan, a Bíblia afirma que Jesus já era o Cristo ao nascer, um Deus pessoal e eterno. A Palavra de Deus afirma: “É que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é [e não será] Cristo, o Senhor” (Lc 2.11). Veja, ainda, a promessa que Deus fez a Simeão: “Revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor” (Lc 2.26).
Outro nome de destaque no Brasil é Luiz Antônio Gaspareto, médium espírita que incorpora pintores famosos, tais como: Renoir, Portinari, Aleijadinho, Rafael, Rembrandt, Van Gogh, Picasso, entre outros. Foi apresentador do programa “Terceira Visão”, na TV Bandeirantes, alguns anos atrás. Gaspareto não é o único a pintar por meio da mediunidade. O jornal Folha de São Paulo publicou matéria, na seção “Cotidiano”, apresentando vários outros médiuns que afirmam incorporar pintores já falecidos.
Embora o assunto seja muito propagado e acreditado por muitos, vale a pena ouvir a opinião de Rodrigo Naves, crítico de Arte e professor do Instituto de Artes da Unicamp, registrada no artigo acima mencionado. O crítico diz que os quadros sugerem semelhanças muito superficiais com o estilo dos nomes que os assinam e que as diferenças são muito maiores que as ligeiras semelhanças. Naves acrescenta ainda que os quadros pintados por médiuns são obras “tão-somente de má qualidade” (7/3/93, p. 4-6).
Vale citar também Mirna Grizich, reconhecida como a “guru dos cristais” desde 1980. Estudou no famoso centro de terapias alternativas, o Esalen Institute, na Califórnia, EUA. É produtora e apresentadora de várias rádios com programas de músicas relacionadas com a Nova Era.
Carmem Lúcia Balhestero promove a Nova Era por meio de vídeos e fitas cassete. É a fundadora da Fraternidade Pax Universal e tem como guia Saint Germanin, misteriosa figura de um alquimista francês que apareceu em diversas épocas.
           
A influência externa
Alguns nomes estrangeiros têm exercido muita influência em promover os conceitos da Nova Era no Brasil. Shirley MacLaine, uma atriz de Hollywood, já visitou o Brasil, e tem vários livros traduzidos para o português: Dançando na luz, Minhas vidas, Não caia da montanha, A vida é um palco, Você também pode chegar lá e Em busca do eu. Shirley MacLaine, talvez, seja uma das pessoas que mais têm contribuído para a divulgação da Nova Era nos dias atuais.
Fritjof Capra, com doutorado em física pela Universidade de Viena, na Áustria, é outro estrangeiro que tem vindo ao Brasil dirigir palestras, tentando passar a idéia de que existe um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. Em seu livro, O tao da física, ele narra uma experiência que teve sentado na praia numa tarde de verão. Como físico, ele sabia que a areia, as rochas, a água e o ar eram feitos de moléculas e átomos. Veja o seu relato:
Assim, “vi” cascatas de energia cósmica, provenientes do espaço exterior, cascatas nas quais, em pulsações rítmicas, partículas eram criadas e destruídas. “Vi” os átomos dos elementos — bem como aqueles pertencentes a meu próprio corpo — participarem dessa dança cósmica de energia. Senti o seu ritmo e “ouvi” o seu som. Nesse momento, compreendi que se tratava da dança de Shiva, o Deus dos dançarinos, adorado pelos hindus.
O próprio Capra declara que se tornara interessado no misticismo oriental, o que certamente o levou a ver nos átomos dos elementos a dança de Shiva, numa experiência meramente subjetiva. Se Capra fosse interessado em cultos afro-brasileiros e não no hinduísmo, sua conclusão teria sido diferente. Ao invés de ver nos átomos a dança de Shiva, teria visto a dança dos orixás.
     
O mago da Nova Era
É na pessoa de Paulo Coelho que o movimento Nova Era tem uma de suas maiores expressões no Brasil. Coelho nasceu no Rio de Janeiro, em 1947. Houve um período em sua vida em que se envolveu com teatro, trabalhando como ator e diretor. Aos 25 anos, passou a se dedicar à música e ao jornalismo, editando, em 1972, a revista 2001, que retratava o pensamento da década de 70. Foi nessa época que iniciou os estudos de magia e ocultismo que o levaram a ingressar em diversas “ordens místicas”, participando de cursos em várias partes do mundo. Em 1986, depois de percorrer a pé a rota medieval de Santiago de Compostela, escreveu o livro O diário de um mago. No ano seguinte, foi a vez de O alquimista. Depois, vieram Brida, As Valkírias e Nas margens do rio Piedras eu sentei e chorei. Todos têm estado na lista dos mais vendidos, e alguns já foram traduzidos para diversas línguas.
  Do ponto de vista bíblico, Paulo Coelho é um homem confuso espiritualmente e é lamentável que uma multidão de pessoas abrace ingenuamente suas idéias. Embora afirme ser católico romano, consegue, ao mesmo tempo, crer na reencarnação, crença condenada claramente pelo catolicismo. No livro As Valkírias, Paulo Coelho declara:
O Universo está povoado de anjos. São eles que nos trazem a esperança, como o que anunciou aos pastores que um messias havia nascido.     
Embora a Nova Era diga que muitos messias já desfilaram pelo mundo, a Palavra de Deus jamais se referiu a Jesus como um messias, mas como o Messias. Veja a declaração do apóstolo Pedro em Mateus 16.16: “Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Cristo é o equivalente no grego do Novo Testamento para o termo Messias no Antigo Testamento.
Em Atos 4.12, Pedro afirma ainda: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”. O próprio Jesus declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6). Jesus não disse que era um dos caminhos, mas o caminho. Ele não é um messias, como escreveu Paulo Coelho, mas o Messias. Veja ainda Lucas 2.11 e João 4.29.
Há alguns outros conceitos (biblicamente errados) no livro As Valkírias que precisam de uma avaliação. Observe as seguintes declarações:
Todo mundo pode contatar quatro tipos de entidades no mundo invisível: os elementais, os espíritos desencarnados, os santos e os anjos. Os elementais são as vibrações das coisas da natureza — do fogo, da terra, da água e do ar — e nós os contatamos por meio do ritual. São forças puras — como os terremotos, os raios ou os vulcões. Porque precisamos entendê-los como ‘seres’, aparecem sob a forma de duendes, de fadas, de salamandras”.      
A crença de que podemos entrar em contato com os elementais da natureza, tais como: duendes, fadas e salamandras, não passa, na verdade, apenas de conto de fadas. Bem alertou o apóstolo Paulo, quando escreveu a Timóteo: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.3,4).
O interessante é que muitos pais tentam explicar aos filhos que fadas e duendes não existem, que não passam de fábulas. Agora, não apenas as crianças devem ser lembradas disso, mas também muitos adultos com formação universitária (e até professores de universidades!). O que Paulo disse na carta que escreveu aos romanos descreve bem essa gente: “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança de imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém” (1.22, 23, 25).
De acordo com As Valkírias, “os espíritos desencarnados são aqueles que estão vagando entre uma vida e outra, e nós os contatamos por meio da mediunidade” (p.71). A Bíblia condena claramente o contato com os espíritos dos que já morreram: “Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos” (Dt 18.10,11). Veja também Isaías 8.19,20.
Depois, aparecem os santos. Paulo Coelho diz que eles são contatados pela oração. Observe o que ele diz: “Invocamos os santos pela oração constante [...] E quando eles estão perto, tudo se transforma. Os milagres acontecem” (p. 72).
  Ao contrário do que afirma Coelho, em nenhum lugar a Bíblia ensina a fazer oração às pessoas que já morreram. Tanto Maria quanto Pedro, Judas, Tadeu, João, entre outros, não poderiam ouvir as orações feitas em diferentes partes do mundo, pois não são oniscientes nem onipresentes. Onisciência e onipresença são atributos exclusivos de Deus e, sendo assim, somente Ele tem o poder de ouvir tais orações. Orar aos santos é tentar se comunicar com os mortos, algo condenado pela Bíblia e já discutido anteriormente neste trabalho.
A Palavra de Deus ensina a orar a Jesus, como Estêvão fez em Atos 7.59,60. A última oração na Bíblia também foi dirigida a Jesus: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22.20). A Bíblia ensina, ainda, que o cristão deve orar ao Pai, em nome de Jesus (Jo 15.16) e que “a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1.3). Veja o exemplo de oração que o apóstolo Paulo transmite aos crentes de Éfeso: “Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda a família, tanto no céu como sobre a terra” (Ef 3.14,15). O próprio Deus nos ordena a clamar a Ele: “Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei cousas grandes e ocultas, que não sabes” (Jr 33.3).           
Por último, as entidades do mundo invisível, de acordo com o livro em referência de Paulo Coelho, podem ser contatadas por meio da canalização (p. 78). Canalização é o processo em que um médium, ao entrar em transe, faz contato com algum espírito, a consciência cósmica superior ou alguma entidade, passando a receber e a transmitir as mensagens de tal espírito. Não há dúvida, à luz da Palavra de Deus, de que tais entidades são demônios, como advertiu o apóstolo Paulo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (1Tm 4.1). João advertiu: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito: antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora” (1Jo 4.1).
  De fato, uma onda mística tomou conta do Brasil em muitos níveis e segmentos da sociedade. As religiões orientais, com suas idéias como reencarnação, ufologia (discos voadores), meditação transcendental, ioga, comunicação com os mortos, duendes, gnomos, fadas, astrologia, e todo tipo de adivinhação conseguem enganar uma multidão, em pleno final do século vinte, em meio a um fantástico desenvolvimento tecnológico. Bem disse o Senhor, por meio do profeta Jeremias: “Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (2.13).
O ser humano fez tremendo progresso no campo da ciência, mas espiritualmente continua sendo um grande fracasso, em desesperada necessidade de um relacionamento de amor e paz com o Deus único e verdadeiro por meio de Jesus Cristo, o único que tem as palavras de vida eterna (Jo 6.68).

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Paulo Romeiro é Ph.D. em Ciências da Religião, professor de apologética e presidente da AGIR (Agência de Informações Religiosas).

notas:___________________
Revista Veja, 29 de julho, 1992, p. 110.
Caderno de Empregos, 7/7/92, p.2
Lauro Trevisan. Os poderes de Jesus Cristo, Livraria Editora e Distribuidora da Mente Ltda., Santa Maria, RS, 1983, p. 59.
Fritjof Capra. O tao da física, Editora Cultrix, São Paulo, SP, 1975, 1983, p. 13.
Paulo Coelho. As Valkírias, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1992, p. 38.
Ibid., p. 70.

 

 
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