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Mesa-redonda
Trabalho voluntário
Texto
por Adriana Pasello e Fernanda A. Franco, do Instituto Jetro
Nos últimos anos, o voluntariado tem sido um
tema corrente na imprensa, nas empresas e na agenda de todos os governos.
E como ajudar o próximo é dever de todos os cristãos,
falaremos sobre este assunto nesta entrevista com a professora Andrea
Goldschmidt, que trabalha como consultora na APOENA Empreendimentos Sociais,
auxiliando empresas na implantação de programas de responsabilidade
social junto às comunidades carentes. Andrea é administradora
de empresas, com especialização em marketing, e atua
como captadora de recursos desde 1999 e professora de Marketing e Captação
de Recursos na ESPM e na FACAMP, além de colaborar com o Centro
de Estudos do Terceiro Setor (CETS), da Fundação Getúlio
Vargas.
POVOS – Quais são as características
essenciais para todos aqueles que desejam realizar um trabalho voluntário?
Andrea Goldschmidt - Apesar de muita gente encarar o trabalho voluntário
como uma atividade esporádica, considero que uma das principais
características essenciais àqueles que desejam realizar
um trabalho voluntário seja o compromisso com a causa e com a
ação. Na maior parte das atividades, um compromisso permanente.
Para muitos, o conceito de voluntário
se resume à mão-de-obra gratuita.
Acredito que, mais do que uma mão-de-obra gratuita, o voluntário
tem o papel de auxiliar a organização beneficiada no desenvolvimento
de atividades que ela não poderia realizar sem a presença
dessas pessoas, seja porque não pode arcar com os custos de um
profissional para esta função, seja por se tratar de uma
atividade que requer um especialista ou uma atividade que precisa de
um auxílio em tempo parcial. Muitos voluntários também
auxiliam as organizações por meio de seus contatos, ou
seja, mobilizando outras pessoas para que divulguem uma causa, captem
recursos, etc. Todas essas atividades independem da presença do
voluntário, que não está fornecendo uma mão-de-obra,
mas outras coisas de grande valor para a organização.
Há diferença entre trabalho voluntário
e prática da filantropia?
A filantropia, geralmente, está associada à doação
de bens. O voluntário pode contribuir com seu tempo, seu conhecimento,
seus contatos e, também, com a doação de bens. Dessa
maneira, o trabalho voluntário pode ou não ter características
filantrópicas. Muitas atividades desenvolvidas por voluntários
ajudam a promover grandes mudanças estruturais ou administrativas
nas organizações que os recebem e, nesse sentido, não
têm características filantrópicas, mas, sim, de investimento
social.
Bill Hybels, renomado pastor e escritor americano,
autor de A revolução no voluntariado (Editora Mundo Cristão),
fala sobre a existência de alguns mitos em torno do conceito
de voluntariado.
Acredito que, muitas vezes, o treinamento aconteça na prática,
de forma diferente do que imaginamos a princípio, quando o termo é mencionado.
Não tenho dúvidas de que todo trabalho voluntário
contribui para o desenvolvimento de quem o presta, seja do ponto de vista
pessoal ou do ponto de vista profissional. Acredito, no entanto, que
as pessoas estejam mais dispostas a receber treinamento e desenvolvimento
como uma conseqüência e não como o primeiro passo para
iniciar um trabalho voluntário. De qualquer maneira, em muitos
casos, é importante que a organização promova um
treinamento inicial, mostrando ao voluntário suas expectativas,
seus limites, entre outras coisas.
Quais seriam os mitos ou equívocos mais
comuns quanto à compreensão e definição
de voluntariado?
Diria que é um equívoco o indivíduo participar uma única
vez de uma ação e nunca mais se envolver. Isso, geralmente,
cria mais problemas do que soluções para a organização
que o recebe. Por outro lado, como “voluntário” ele
não deve ser obrigado a participar de forma fixa. Acredito que
o mais importante seja chegar a um meio-termo que alie o comprometimento
com a ação e a flexibilidade de participação,
conforme a conveniência para o voluntário.
Você acredita que as igrejas perderam
um pouco de força ou influência no voluntariado com o
engajamento de empresas e governos?
Acredito que as igrejas não vão perder a força.
Primeiro, porque suas causas são muito mobilizadoras e, geralmente,
os fiéis têm grande identificação com elas.
Em segundo lugar, porque, geralmente, as pessoas gostam de realizar trabalhos
em grupo, seja pelo ânimo que um voluntário dá ao
outro, seja pelo fato de que as atividades já estão “organizadas”,
facilitando o envolvimento de pessoas que têm dificuldade em começar
algo do zero ou mesmo pelo reconhecimento que podem receber em suas comunidades.
Em todos esses sentidos, as igrejas podem ter papéis muito importantes
como facilitadoras e mobilizadoras de pessoas para a ação
voluntária.
Há diferenças entre o voluntariado
empresarial e o voluntariado desenvolvido a partir de organizações
sem fins lucrativos?
No caso do voluntariado empresarial, é comum que as empresas que
promovem a ação tenham algum interesse específico,
como, por exemplo, o desenvolvimento de certas habilidades em seus funcionários
ou a motivação para o trabalho em equipe. Ou, ainda, a
integração de pessoas de áreas ou níveis
hierárquicos diferentes. As alternativas de atividades disponíveis,
nestes casos, costumam ser limitadas por um fator externo: o interesse
das empresas, além dos interesses dos funcionários e das
organizações que os receberão.
Quais são as maiores vantagens e desvantagens
de uma organização do terceiro setor cuja força
motriz é o trabalho voluntário?
A principal vantagem é poder contar com a força, os conhecimentos
específicos e as áreas de influências dessas pessoas.
A maior desvantagem, na minha opinião, é a dificuldade
em manter uma equipe permanente e realmente comprometida com o trabalho,
especialmente quando é necessário um grande envolvimento
em termos do número de horas que as pessoas precisam dedicar a
esse trabalho.
Nas organizações cristãs
e nos projetos sociais, é necessário que os voluntários
passem por um processo de recrutamento, seleção, adequação
de cargos e funções?
Certamente. Um voluntário, assim como um profissional remunerado,
só poderá exercer adequadamente a sua função
se tiver habilidades e capacitação específica para
isso. Pode parecer estranho “rejeitar” um voluntário,
mas é preciso ter em mente que uma pessoa sem as qualificações
ideais pode não contribuir adequadamente para a realização
da atividade. Por exemplo, num programa de alfabetização
de adultos, é importante que os professores voluntários
conheçam a metodologia didática, tenham paciência,
sejam atenciosos, lidem bem com as dificuldades que as pessoas vão
sentir no começo. Você comentou sobre a dificuldade em manter
os voluntários comprometidos e envolvidos com a missão
e os objetivos da organização. Que conselho você daria
aos líderes para que o verdadeiro comprometimento seja promovido
e mantido?
Como não há remuneração, o voluntário
precisa sentir que está ganhando alguma outra coisa para se manter
engajado e motivado a prestar o serviço. Ele pode aprender coisas úteis
para a sua vida, pode se sentir feliz por fazer parte de um grupo, pode
gostar da sensação de contribuir para a solução
de uma causa, entre tantos outros fatores motivadores. É claro
que cada pessoa sentir-se-á motivada por fatores diferentes, mas,
de maneira geral, acredito que as ações de valorização
e reconhecimento dessas pessoas sejam muito importantes. |
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