Todos reconhecemos o que chamamos de "a grande comissão": "Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura" (Mc 16.15) E, de uma maneira concreta, ainda que não excelente, como o desejado, a Igreja tem cumprido a missão de levar, a cada pessoa, o conhecimento da boa notícia de que o Filho de Deus veio à terra para buscar o que se havia perdido. O que não temos percebido é que essa comissão tem três frentes.
A primeira é a pregação do evangelho.
A segunda está relacionada à implicação nacional: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado" (Mt 28.19,20).
Nessa dimensão, o que se considera é a influência sobre as nações, para que possam se ajustar às demandas do Cristo. Alguns grupos, de acordo com a história, esforçaram-se nesse sentido. Mas suas tentativas, embora produzissem efeito, tiveram um caráter extemporâneo. Até mesmo a tentativa da Igreja de Roma, principalmente na Idade Média.
Entre outros, tivemos os puritanos, na Inglaterra; os presbiterianos, na Escócia; os calvinistas, em Genebra, Suíça; e, mais recentemente, na Holanda, com Abraham Kuipper. Causaram impacto, porém, foram episódicas, algumas, inclusive, com a intenção de implantar o reino e não de sinalizá-lo, como ensina a Escritura. Resta, entretanto, uma tarefa: influenciar as nações, de modo que o máximo possível do reino apareça nelas. Afinal, não podemos nos esquecer de que há um juízo para as nações. E vemos isso no texto de Mateus 25.32-46. Segundo esses versos, Jesus avaliará cada nação pela forma como os vitimados pelo sistema foram tratados. Enfim, se houve ou não justiça social.
A última é a provocação de adoração por meio das boas obras: "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mt 5.16). Jesus ordena que manifestemos a luminosidade com a qual Ele nos dotou. Essa luminosidade aparece na forma de boas obras, que têm a função de provocar nos beneficiados a glorificação do nome do Pai. Essas boas obras têm a ver com as nossas características que, necessariamente, nos levam a fazer o bem: as qualidades expostas nas bem-aventuranças.
Somos humildes de espírito. Reconhecemos que somos dependente da graça e que devemos abraçar a todos sem nenhuma discriminação. Deus ama e quer salvar a todos. Portanto, devem ser amados e ajudados por nós. Somos os que choram, gente de compaixão ativa, que está onde o sofrimento acontece para diminuí-lo como for possível. Somos os mansos, gente que entende a autoridade por meio do serviço e pelo exemplo aponta o caminho à sociedade. Somos os que têm fome e sede de justiça, gente que não se esquiva de ser a voz dos que foram emudecidos pela injustiça em suas múltiplas formas. Somos misericordiosos, gente que não confunde o pecado com o pecador, reconhecendo que todo ser humano tem direito à dignidade, independente da gravidade de seu erro, aprimorando as instituições em favor do ser humano.
Somos os de coração puro, gente que sabe das possibilidades que a graça cria, que sabe que vale a pena investir no ser humano e na sociedade, porque a graça divina age eficazmente. Somos os pacificadores, aqueles que resolvem problemas tendo em vista o estabelecimento do direito. Estamos prontos a sofrer por isso, porque foi o que vimos no Cristo Jesus.
Infelizmente, ainda que haja um grande número de cristãos engajados nessa aplicação de nossa luminosidade, essa tem sido uma grande omissão da igreja local, a começar pelo ensino dessa verdade, de modo que os cristãos, por não saber, sequer são desafiados a vivê-lo. Os cristãos não têm sido informados de que são seres luminosos e, por isso, não sabem essa luz ilumina.
Muita gente está sofrendo por causa desse desconhecimento por parte dos seguidores de Jesus. Não reconhecem sua natureza em Cristo e muito menos a consequente manifestação da mesma. Essa luz, todavia, tem de brilhar.
Ariovaldo Ramos é filósofo, teólogo e escritor. Além de pastor batista, é membro da diretoria da Visão Mundial, a maior organização cristã não-governamental do mundo.