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Intercontextualidade
Uma ponte entre a interação e a contextualização

Gabriele Greggersen

Contextualizar, como aprendemos aqui mesmo nesta revista e em cursos de formação de missionários e obreiros, significa estabelecer pontes, atravessar portas entre mundos. E os mundos são tantos quanto os povos. Isso se pensarmos somente em povos e mundos reais. Mas podemos imaginar outros mundos, como, por exemplo, o mundo de Nárnia, criado por um britânico chamado C. S. Lewis, mal conhecido no Brasil. Lewis é o autor do livro que inspirou, recentemente, o filme “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”. Sem contra os mundos dos mitos, das lendas e das festas que acontecem por aqui mesmo, no Brasil. Foi numa aventura dessas que me vi, recentemente, fazendo Lúcia ingressar nas terras do bumba-meu-boi, o que resultou em curta-metragem que  não sei muito bem ainda o que fazer com ele.
Esse tipo de jornada não requer muitas coisas, pois a ponte já existe: o nosso Senhor Jesus Cristo. Basta nos valermos dela e atravessarmos a porta daquele que abre e ninguém fecha e fecha sem que haja quem seja capaz de abrir. As possibilidades são infinitas e fascinantes, pois os povos existem por todo e qualquer lugar, salvo raras exceções: aqui, na Bolívia, no Congo ou no Iraque.
Agora, para que essa contextualização aconteça, é preciso conhecer a cultura local e não menosprezá-la, como fazem muitos missionários quando chegam em determinado local considerado subdesenvolvido. É preciso saber interagir com a cultura como adultos e não descartá-la, como se fosse algo inferior ou coisa de Terceiro Mundo, que já não é mais chamado assim, mas de três quartos do mundo, o que acho até mais realista. Não, é preciso ainda mais do que isso. Precisamos simplesmente “amar” a cultura e nos “molhar” nela.
Depois que se tem isso claro, as possibilidades de ponte são simplesmente fascinantes. E isso por uma razão muito simples: a criação. O mundo é decaído, está certo. Acontece que a verdade mais antiga é que tudo o que há de bom no mundo (mesmo o que não existe explicitamente para a glória de Deus, pode vir do maligno?) vem de uma única mente: a do Criador, por meio do Verbo. E o dia em que você disser que isso não vem de Deus, estará cometendo uma heresia muito grave, para a qual amigos, irmãos e missionários, como João Calvino, já apontavam: “A mente do homem, embora arruinada e pervertida em sua totalidade, ainda está revestida e ornada com os dons excelentes de Deus. Se considerarmos o Espírito de Deus como o único fundamento da verdade, não rejeitaremos a própria verdade, nem a desprezaremos, não importando onde ela apareça, a menos que desejemos desonrar o Espírito de Deus...”.
Não estou dizendo que é fácil usar a ponte, ou a porta, que é o próprio Cristo, para se comunicar com as culturas e, principalmente, comunicar as boas-novas aos povos. Isso quase sempre requer muito empenho e estudo e, principalmente, esse “mergulho” na cultura.
O que tenho é minha experiência de educadora nessas terras brasileiras. E a palavra-chave na educação é bem parecida com a da teologia: interação. O tem a contextualização em comum com a interação? Isso mesmo: a ação. Paul Ricoeur, outro cristão protestante, que poucos conhecem, definiu muito bem o que é ação:
“Ao se destacar do seu agente, a ação adquire uma autonomia semelhante à autonomia semântica de um texto; ela deixa um rastro, uma marca; inscreve-se no curso das coisas e se torna arquivo e documento. À maneira de um texto, cuja significação se liberta das condições iniciais da sua produção, a ação humana tem um peso que não se reduz à sua importância na situação inicial da sua aparição, mas permite a reinscrição do seu sentido em novos contextos. Finalmente, a ação, como um texto, é uma obra aberta, dirigida a uma sucessão indefinida de leitores possíveis. Os juízes não são contemporâneos, mas a história posterior”.
Já experimentou fazer a ponte entre a interação e a contextualização? Para quem não sabe, interação é o que um educador, que se assume como tal, faz o tempo todo com muitas pessoas. E a Internet, então? Essa capacidade é um dos elementos essenciais para o sucesso de qualquer curso a distância. As possibilidades de comunicação, se não dobram, triplicam, quadruplicam, etc.
“A interação é a ação de um objeto físico sobre outro — os objetos físicos podem ser considerados desde partículas pontuais até pontos quânticos . Além da interação puramente física, o termo designa a ação conjunta humano-humano e humano-máquina. Em termos simples, ocorre interação quando a ação de uma pessoa desencadeia uma reação em outro (humano ou não). Esta interação pode ter diversos níveis, desde a simples bidirecionalidade até (sic) a interatividade ”.
Então, junte interação com contextualidade e qual será o resultado? “Intercontextualidade”.  Uma contextualidade comunicada? Uma contextualidade educada? Será que esse neologismo pega?

Bibliografia:
RICOUER, Paul. Do texto à ação, Porto, Rés Editora, 1989, p.177.
Interação, Wikipédia, disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Intera%C3%A7%C3%A3o, acesso em 14/11/06.
CALVINO, João, As Institutas, ou tratado da religião cristã, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985.

nota______________
João Calvino, Institutas da religião de Cristo, II, ii, 15



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