Contextualizar,
como aprendemos aqui mesmo nesta revista e em cursos de formação
de missionários e obreiros, significa estabelecer pontes,
atravessar portas entre mundos. E os mundos são tantos quanto
os povos. Isso se pensarmos somente em povos e mundos reais. Mas
podemos imaginar outros mundos, como, por exemplo, o mundo de Nárnia,
criado por um britânico chamado C. S. Lewis, mal conhecido
no Brasil. Lewis é o autor do livro que inspirou, recentemente,
o filme “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”.
Sem contra os mundos dos mitos, das lendas e das festas que acontecem
por aqui mesmo, no Brasil. Foi numa aventura dessas que me vi, recentemente,
fazendo Lúcia ingressar nas terras do bumba-meu-boi, o que
resultou em curta-metragem que não sei muito bem ainda
o que fazer com ele.
Esse tipo de jornada não requer muitas coisas, pois a ponte
já existe: o nosso Senhor Jesus Cristo. Basta nos valermos dela
e atravessarmos a porta daquele que abre e ninguém fecha e fecha
sem que haja quem seja capaz de abrir. As possibilidades são
infinitas e fascinantes, pois os povos existem por todo e qualquer
lugar, salvo raras exceções: aqui, na Bolívia,
no Congo ou no Iraque.
Agora, para que essa contextualização aconteça, é preciso
conhecer a cultura local e não menosprezá-la, como fazem
muitos missionários quando chegam em determinado local considerado
subdesenvolvido. É preciso saber interagir com a cultura como
adultos e não descartá-la, como se fosse algo inferior
ou coisa de Terceiro Mundo, que já não é mais
chamado assim, mas de três quartos do mundo, o que acho até mais
realista. Não, é preciso ainda mais do que isso. Precisamos
simplesmente “amar” a cultura e nos “molhar” nela.
Depois que se tem isso claro, as possibilidades de ponte são
simplesmente fascinantes. E isso por uma razão muito simples:
a criação. O mundo é decaído, está certo.
Acontece que a verdade mais antiga é que tudo o que há de
bom no mundo (mesmo o que não existe explicitamente para a glória
de Deus, pode vir do maligno?) vem de uma única mente: a do
Criador, por meio do Verbo. E o dia em que você disser que isso
não vem de Deus, estará cometendo uma heresia muito grave,
para a qual amigos, irmãos e missionários, como João
Calvino, já apontavam: “A mente do homem, embora arruinada
e pervertida em sua totalidade, ainda está revestida e ornada
com os dons excelentes de Deus. Se considerarmos o Espírito
de Deus como o único fundamento da verdade, não rejeitaremos
a própria verdade, nem a desprezaremos, não importando
onde ela apareça, a menos que desejemos desonrar o Espírito
de Deus...”.
Não estou dizendo que é fácil usar a ponte, ou
a porta, que é o próprio Cristo, para se comunicar com
as culturas e, principalmente, comunicar as boas-novas aos povos. Isso
quase sempre requer muito empenho e estudo e, principalmente, esse “mergulho” na
cultura.
O que tenho é minha experiência de educadora nessas terras
brasileiras. E a palavra-chave na educação é bem
parecida com a da teologia: interação. O tem a contextualização
em comum com a interação? Isso mesmo: a ação.
Paul Ricoeur, outro cristão protestante, que poucos conhecem,
definiu muito bem o que é ação:
“Ao se destacar do seu agente, a ação adquire uma autonomia
semelhante à autonomia semântica de um texto; ela deixa um rastro,
uma marca; inscreve-se no curso das coisas e se torna arquivo e documento. À maneira
de um texto, cuja significação se liberta das condições
iniciais da sua produção, a ação humana tem um
peso que não se reduz à sua importância na situação
inicial da sua aparição, mas permite a reinscrição
do seu sentido em novos contextos. Finalmente, a ação, como um
texto, é uma obra aberta, dirigida a uma sucessão indefinida
de leitores possíveis. Os juízes não são
contemporâneos, mas a história posterior”.
Já experimentou fazer a ponte entre a interação
e a contextualização? Para quem não sabe, interação é o
que um educador, que se assume como tal, faz o tempo todo com muitas
pessoas. E a Internet, então? Essa capacidade é um dos
elementos essenciais para o sucesso de qualquer curso a distância.
As possibilidades de comunicação, se não dobram,
triplicam, quadruplicam, etc.
“A interação é a
ação de um objeto físico
sobre outro — os objetos físicos podem ser considerados
desde partículas pontuais
até pontos
quânticos .
Além da interação puramente física,
o termo designa a ação conjunta
humano-humano e humano-máquina.
Em termos simples, ocorre interação quando a ação
de uma pessoa desencadeia uma reação em outro (humano
ou não). Esta interação pode ter diversos níveis,
desde a simples bidirecionalidade até (sic) a interatividade ”.
Então,
junte interação com contextualidade
e qual será o resultado? “Intercontextualidade”. Uma
contextualidade comunicada? Uma contextualidade educada? Será que
esse neologismo pega?
Bibliografia:
RICOUER, Paul. Do texto à ação, Porto,
Rés Editora, 1989, p.177.
Interação, Wikipédia, disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Intera%C3%A7%C3%A3o,
acesso em 14/11/06.
CALVINO, João, As Institutas, ou tratado da religião
cristã, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985.
nota______________
João Calvino,
Institutas da religião de Cristo, II, ii, 15
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