Recentemente, alguém
me perguntou: “Qual foi a leitura que mais influenciou a sua
vida?”.
Não precisei de um segundo para responder: “Os livros
de Amy Carmichael”.
Em nossos dias, há um grande interesse em espiritualidade. Os
pós-modernos estão buscando experiências espirituais
que preencham o vazio deixado pelo modernismo e suas soluções
apenas cognitivas, científicas e gerenciais.
Os evangélicos também estão falando e escrevendo
sobre espiritualidade, mas, pela falta de literatura disponível,
alguns recorrem apenas a escritores e místicos católicos
de séculos passados. Infelizmente, são escassos os livros
em português de evangélicos, como, por exemplo, Amy Carmichael,
que viveram em intimidade e entrega radical a Deus.
Nascida na Irlanda em 1867, Amy cresceu numa família piedosa,
onde aprendeu, desde a infância, que a vida cristã nada
mais é do que ter um relacionamento pessoal com Deus. E essa
intimidade se intensificou por causa do seu envolvimento com o Keswick, um
movimento de renovação na Igreja Anglicana da Inglaterra.
Com forte convicção de sua chamada missionária,
apesar de ter uma saúde frágil, ela foi para a Índia,
em 1895, tornou-se cidadã, vestiu-se como indiana, arriscou
sua vida para servir na evangelização e resgate de crianças
em perigo e nunca mais voltou para a Inglaterra, até sua morte
em 1951.
No início desses 56 anos de serviço missionário,
Amma (seu nome na Índia) descobriu o horror das crianças
vitimadas pela prostituição infantil institucionalizada
como parte da religião hindu. Ela gastou e arriscou sua vida
para salvar e cuidar de centenas dessas crianças.
Amma escreveu vários livros, a maior parte depois de uma queda
em que ela sofreu uma fratura exposta na perna, da qual, por falta
de condições na época, nunca sarou. Apesar de
vinte anos acamada, sofrendo angustiantes dores, ela continuou na liderança
espiritual de Dohnavur, relatando suas experiências e as de muitas
outras vidas marcadas por Deus e pelo amor divino A primeira estrofe
de um poema é um exemplo do coração desse destemida
missionária:
Ame através de mim, ó Deus,
Faz-me como ar puro
Por onde passam livres, as cores,
Como se eu não existisse.
No seu livrinho If (“Se”), ela nos desafia
a colocar Deus e os outros em primeiro lugar, demonstrando um verdadeiro “amor
do Calvário”:
“Se
eu não tiver compaixão pelos meus colegas, como o Senhor teve
compaixão de mim, então não conheço nada do amor
do Calvário.
“Se posso ferir o outro ao falar a verdade, mas sem me preparar espiritualmente,
e sem sentir mais dor do que o outro, então não conheço
nada do amor do Calvário.
“Se os elogios dos outros me
alegram demais e acusações
me deprimem; se não posso passar por mal-entendidos sem me
defender; se eu gosto de ser amado mais que amar, servido mais que
servir, então não conheço nada do amor do Calvário.
“Se quero ser conhecido como quem acertou em uma decisão, ou quem
a sugeriu, então não conheço nada do amor do Calvário.
“Se eu ficar no lugar que pertence apenas a Jesus, fazendo-me necessária
demais para uma pessoa, em vez de levá-la a se agarrar nele, então
não conheço nada do amor do Calvário.
“Se eu me recusar a ser um gão de trigo que cai na terra e morre,
então não conheço nada do amor do Calvário.
“Se eu quero qualquer lugar no mundo, a não estar no pó ao
pé da cruz, então não conheço nada do amor do Calvário”.
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