Outro dia, mais precisamente
há alguns meses, assistia ao programa do Jô. Gosto de
acompanhá-lo, não só por sua inteligência,
capacidade comunicativa e talento artístico, mas também
por sua insistente recorrência ao tema da religiosidade. Além
do seu amplo conhecimento geral e lingüístico, demonstra
ter mais conhecimento bíblico e teológico do que muitos
crentes que vemos por aí.
Naquela noite, fiquei surpresa com a convidada: Baby Consuelo, ou Baby
do Brasil, como ficou conhecida mais tarde. Embora já tivesse
ouvido falar de sua conversão e até visto uma entrevista
com ela em algum programa mais “bem-comportado”, era, no
mínimo, estranho ver a famosa cantora da jovem guarda ir a um
programa desses para não falar de óvnis, poderes mágicos
do Rá ou dos valores hippies. Sim, porque eram temas assim que
se esperava de uma cantora, considerada extravagante por seu misticismo,
cuja categoria musical era classificada, por muitos, como “à parte”,
mas que eu, particularmente, coloco sob o grande guarda-chuva do rock
(apesar de ela mesma se considerar cantora de pop e, mais recentemente, “pop
pastora” da igreja Ministério do Espírito Santo
de Deus em Nome de Jesus).
Pelo menos, quatro dos seus seis filhos com Pepeu Gomes, também
cantor, seguiram suas pegadas. O que ela fez foi tentar descrever,
com todo o entusiasmo e firmeza, todo o prazer indizível que
tem em Jesus Cristo! Ao longo da conversa, deu a entender que não
foi a primeira vez que tinha sido convidada a ir ao programa.
Com todo respeito aos fãs de carteirinha, tudo em mim sempre
se levantou contra o estilo dela, principalmente em relação
ao seu comportamento meio vulgar, meio irreverente, tipo Rita Lee.
E a notícia da sua conversão não mudou em nada
o meu gosto. Mas gostei das palinhas que concedeu no final. E devo
confessar que vibrei várias vezes, por exemplo, quando contou
que, certa noite, na igreja, ficou sem tocador de bateria e sentiu
que havia alguém no público que sabia tocar. Então,
apelou à comunidade para que a pessoa se manifestasse.
Depois de algum tempo, apresentou-se um menininho que devia ter entre
oito e nove anos de idade e disse que sentia que era para ele tocar.
Ela permitiu, porque sentiu que era Deus quem estava agindo. O menino
foi show de bola e continua na banda da igreja dela até hoje.
O impressionante, para mim, não foi o milagre em si — aliás,
ela contou vários milagres que havia testemunhado, mas,
em especial, a maneira como Deus é capaz de usar a música,
de formas tão pouco convencionais e “escandalosas” para
muitos que se consideram crentes. Não, Deus não pede
licença para se manifestar do modo que bem entende e usar quem
bem entende: uma roqueira; uma criancinha; uma prostituta, como na
história da mulher samaritana (Jo 4.1-42); uma mula, como a
da história de Balaão (Nm 22.22-41); ou uma inimiga,
como na história de Raabe e o envio dos espiões a Jericó (Js
2.1-24).
Fiquei impressionada também com a consistência argumentativa
da musa do rock diante das armadilhas, provocações e
sarcasmos do Jô (e acho que ele também.) Confesso que
estou orando pela conversão desse homem que, assim como Freud e
Lewis, também vive tentando evitar que Deus interfira em sua
vida, negando-o, debochando dele, argumentando contra ele, sem, no
entanto, conseguir parar de falar e pensar nele.
Parece até que toda a experiência anterior à conversão
de Baby adquiria um sentido novo e todo especial agora que ela abraçou
a sua verdadeira vocação. Ao lhe perguntar se ela estava
se dedicando apenas ao ministério ou se continuava também
realizando shows e viajando pelo mundo em eventos seculares, ela respondeu
que os shows não interferem na sua fé, portanto, continua
ativa neles, mesmo porque lhe dão muitas oportunidades de testemunho.
Mas disse que também era convidada para eventos cristãos
no Brasil e pelo mundo, para dar seu testemunho e cantar mais explicitamente
para Deus, coisa que já não podia deixar de fazer.
É claro, amado leitor, que as dúvidas que surgiram em sua cabeça
sobre certas letras de músicas profanas, certos ritmos e certos ambientes
também passaram pela minha, mas prefiro deixar ela resolver isso com
Deus e com a sua própria consciência. Para mim, valeu a lição:
espero que o seu Sem pecado e sem juízo faça que ela reconheça
que a falta de confissão de pecados é o maior absurdo do planeta.
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1 Nicoli, A questão de Deus, Viçosa: Ultimato,
2004.
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