| Eduardo
Cupaiolo |
Eduardo
Cupaiolo tem larga experiência em treinamento de liderança,
tanto empresarial quanto ministerial. Realiza workshops em
conselhos de pastores e igrejas, ocasiões em que já aplicou
muito de sua experiência acadêmica e profissional.
Como autor do recém-lançado livro Contrate preguiçosos (Editora
Mundo Cristão), que ressalta a importância do ser
humano como figura central das organizações, traz
conselhos práticos e preciosos para aqueles que “lidam
com gente”, apontando várias questões relacionadas à liderança. É mestrando
em Organizational Leadership pela Azusa Pacific University, EUA;
MBA pela Fundação Dom Cabral, com concentração
em gestão de pessoas. Também é especialista
em liderança pelo Haggai Advanced LeadershipInstitute (Cingapura),
em Projetos de Transformação Organizacional nos Estados
Unidos e Europa e em Change Management na ODR-USA.
POVOS – Você acredita
que os líderes são os grandes responsáveis
pelo sucesso e fracasso das organizações?
EDUARDO CUPAIOLO – Sim,
acredito. Liderança, como a entendo, é muito
mais responsabilidade do que privilégio.
Qualquer pai de família compreenderá facilmente
o que afirmo. Garantir o sustento material,
espiritual e os alicerces morais dos seus é uma
tarefa árdua, compensada pelos resultados
e, eventualmente, pelo pequeno poder de ficar
com o controle remoto da televisão
por alguns minutos a mais do que os demais.
Os líderes de uma organização,
e aqui estamos falando de líderes
sob o ponto de vista de posição
hierárquica, definem, com sua postura,
com suas escolhas, com o que dizem e como
dizem, o modus operandi da microcultura
da sua organização. Se com
isto apenas acumulam mais e mais poder para
si mesmos, em vez de desenvolver o potencial
de cada um dos indivíduos que compõem
sua organização, estão
cavando sua sepultura. O líder, porém,
que investe no outro e no desenvolvimento
dos seus talentos está dando à organização,
além de vivacidade no presente, vitalidade
para o futuro.
Entre
os conselhos que apresenta em seu livro, você diz que “liderança é muito
mais e muito menos do que se imagina”. Você tem
uma definição que julga ser a mais correta para
liderança?
De maneira bem simples, liderança é o exercício
de influenciar o outro. Minha definição, um pouco mais
ampla e profunda, é que liderança é o impacto
da minha biografia na biografia do outro, e vice-versa. Quando dois
seres humanos se relacionam, causam sempre uma “interferência” na
trajetória de vida do outro. Uma simples palavra, um sim ou
um não, pode alterar completamente a biografia de uma pessoa.
Todos nós passamos por esses “pedágios” na
vida. Se meu pai tivesse me deixado ir naquela viagem, se aquela
moça tivesse dito “sim”, se meu chefe tivesse
aprovado aquele projeto, etc. Mas liderança não é aplicável
apenas a grandes momentos, mas também e principalmente
a cada instante. Um bom-dia pode iluminar uma vida deprimida. Um
abraço, um copo de água e um minuto de atenção
têm o mesmo poder. Liderança, ou traduzindo a idéia,
o poder de influenciar e ser influenciado, é uma habilidade
intrínseca a todo ser humano (não apenas a alguns iluminados,
como muitos pensam). É um presente divino concedido a cada
um de nós e que deve ser utilizado com extremo cuidado.
O
que as igrejas têm a ensinar às empresas sobre
liderança? Há algo que, na prática, verdadeiramente,
estamos à frente?
Muito. Peter Drucker, o admirável pai da Administração
Moderna, já nos alertava que as organizações
devem se relacionar com seus colaboradores como se fossem voluntários
de uma organização sem fins lucrativos. Nesse sentido,
as igrejas têm um currículo invejável. Estamos
nesta há séculos. Nossos membros, além de voluntários,
são mantenedores financeiros do projeto. Ou seja, trabalham
de graça e ainda pagam para trabalhar. A questão é saber
até que ponto estamos (nós, igrejas) aproveitando bem
a vantagem de sermos quem mais e há mais tempo entende sobre
como lidar com voluntários. Particularmente, acho que ainda
temos muito a aprender. Saímos na frente, mas pode ser que
estejamos perdendo caminho para outras instituições
que têm sabido aprender mais rápido. Nada nem ninguém
deveria ter tomado o lugar da igreja na responsabilidade de cuidar
do próximo.
Há alguma
tendência do mundo empresarial em relação à liderança
e gestão de pessoas que deve ter a atenção
dos líderes cristãos (alguma estratégia
que a igreja, como organização, possa incorporar)?
Acredito que, nesse sentido, estamos todos no mesmo barco.
Explico. Todas as organizações lidam com gente. Não
existem igrejas sem gente, assim como não há supermercados
nem empresas de tecnologia sem gente. No entanto, penso que, de uma
maneira geral, as empresas têm, ainda que sejam muitas, demonstrado,
apenas por meio de discurso, uma preocupação maior
com as pessoas. Incluindo no termo não somente seus colaboradores,
mas também clientes, fornecedores, parceiros e o restante
da sociedade como um todo. Não podemos dar todo o crédito
para as empresas. E todos temos causado esse tipo de pressão
no ambiente de negócios. Queremos mais respeito, maior qualidade,
melhor informação e disposição para que
possamos ouvir as nossas próprias queixas e sugestões.
E o mercado está aprendendo isso, e bem mais rápido
que as igrejas.
Focar o ser humano me parece ser parte essencial ao propósito
de uma igreja. Mas o que é parte central, por vezes, vira
acessório. O espetáculo é montado, luzes, som,
poltronas confortáveis, discurso entusiasmado, eletrizante,
mas a mim, indivíduo, com necessidades específicas,
carência de toque pessoal, de atenção, pouco
ou nada se oferece. Cristianismo, Jesus demonstrou inúmeras
vezes, é serviço a varejo que transformamos em serviço
por atacado.
Relacionamento,
mais do que nunca, parece ser a palavra-chave para as organizações.
Com as igrejas não é diferente. O que um líder
precisa saber e fazer para alcançar um bom relacionamento
com sua equipe ministerial?
Quando focalizamos os relacionamentos, temos a impressão de
que estamos tratando de um problema, quando, na verdade, já reflete
parte da solução. Vale considerar que o efeito mais
pernicioso do pecado é a quebra de relacionamentos. Primeiro
o nosso com Deus, depois, por conseqüência, o nosso com
os demais e, por último, o nosso com nós mesmos. Restauração
e salvação passam, portanto, pela recuperação
da nossa capacidade de nos relacionarmos de forma sadia.
Respondendo mais diretamente o foco de sua pergunta, o líder
precisa primeiro entender a importância do tema. Há muitos
líderes que fizeram teste psicológico e descobriram,
para sua total satisfação, que são voltados às
tarefas. “Ufa, assim não tenho de lidar com as pessoas”.
Nada mais triste e errado. Teste nenhum nos autoriza a negligenciar
as pessoas, e isso implica, necessariamente, nos relacionarmos com
elas. E, certamente, um dos grupos de pessoas mais importantes para
o desenvolvimento de relacionamentos profundos e sadios é o
do líder com sua equipe ministerial, e entre seus membros.
A figura do cavaleiro solitário ainda polui a mente de muitos
líderes que acham que devem derrotar sozinhos os dragões
e terminarem o filme com sua silhueta contra a luz seguindo para
o poente. Isso é coisa de Hollywood e não da Bíblia
(por mais divina que a palavra holly seja).
O que um líder, qualquer um, pastor, empresário, técnico
de futebol ou pai, precisa saber é que liderar é uma
tarefa muito árdua para uma só pessoa. Jesus escolheu
um time e se relacionou intimamente com ele. Mas acho uma boa idéia
não tentar reinventar essa roda.
Você acredita
que é possível que as igrejas, ainda que pregando
e ensinando a Palavra de Deus, possam parecer organizações
frias, sem vida e sem impacto nos relacionamentos e na vida
das pessoas?
Bom, acho que todo mundo acha. Aliás, caso não achassem,
não me fariam esta pergunta. Pior. Acho que todo cristão,
com alguns anos de experiência em igrejas locais, infelizmente,
já viveu situações como essas. Triste é perguntarmos
a nós mesmos como isso é possível. E a resposta
imediata será: afastamo-nos dos planos e da vontade de Deus
para a igreja.
Em um artigo do livro Síndrome de Michelangelo trato
desse assunto. Muita forma e pouco conteúdo. Gente preocupada
apenas com números. Quantos convertidos esta noite? Quantas
mãos levantadas? Quantos membros tem a sua igreja? Tudo muito
parecido com o lado mais perverso do ambiente de negócios.
Quanto faturamos no mês passado? Quantos vamos demitir este
mês? Quantas peças com defeito?
Normalmente, essas igrejas também estão profundamente
preocupadas com a estrutura. Todas elas. A de tijolos e a de poder.
Organograma mais bonito e muito maior do que o da IBM. Têm
chefe do chefe, do chefe, do encarregado, do subencarregado, do líder,
do assistente, do subassistente... E o mais importante é estar
no organograma. Já cheguei a sonhar com o dia em que todos
os prédios de igrejas foram subitamente acometidos por um
terremoto localizado. Nenhuma casa vizinha fora afetada. Nenhuma
vida fora perdida. Ninguém se ferira. Mas os prédios
das igrejas não existiam mais. Nenhum deles. Tínhamos,
então, voltado à essência. Voltáramos
a nos relacionar uns com os outros. Repartindo o pão, de casa
em casa, orando e servindo uns aos outros, como na Igreja primitiva.
Assim
como as outras organizações, as igrejas também
precisam “personificar a visão”, mas, para
isso, necessitam do comprometimento de seus membros e colaboradores
(líderes, voluntários, funcionários, etc.).
Como alcançar esse comprometimento?
A sua pergunta já traz a resposta. Personificar a visão.
Agir como se prega. Discurso sem prática é fé sem
obras. Morto e morta. Como Agostinho nos ensinou, há centenas
de anos, devemos pregar o evangelho, mas só usarmos as palavras
como um recurso útil. Vivemos, hoje, uma crise nacional de
moral e ética sem precedentes (quisera estar errado). E só vamos
mudar vidas, igrejas e a própria sociedade se mudarmos a nós
mesmos. Líderes comprometidos com os valores e as práticas
do reino. Só eles serão capazes de conquistar o coração
de suas equipes. Compromisso revelado nas menores e mais sutis das
ações cotidianas. Lembro, por exemplo, de Bill Hybells
confessando que Deus o incomodara por estar usando selos pagos pela
Willow Creek em sua correspondência pessoal. Integridade é isso:
20 cents ou 1 milhão de dólares, tanto faz, para Deus
o que vale é o caráter do homem.
No livro, começo um artigo, sugestivamente batizado de “Sepulcros
caiados”, com uma história que demonstra como alguém
pode ter uma vida publica tão imensamente diferente da privada.
A palavra de ordem é: integridade! As nossas ações
falam muito mais alto que os nossos discursos.
Em
entrevista recente, você afirmou que “nem todos
poderemos ser os melhores, mas todos podemos melhorar”.
Que conselho você deixaria para aqueles líderes
que desejam “melhorar” e rever sua postura diante
dos liderados?
Humildade. |