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Focando pessoas

Texto por Adriana Pasello e Fernanda A. Franco, do Instituto Jetro

Eduardo Cupaiolo

Eduardo Cupaiolo tem larga experiência em treinamento de liderança, tanto empresarial quanto ministerial. Realiza workshops em conselhos de pastores e igrejas, ocasiões em que já aplicou muito de sua experiência acadêmica e profissional. Como autor do recém-lançado livro Contrate preguiçosos (Editora Mundo Cristão), que ressalta a importância do ser humano como figura central das organizações, traz conselhos práticos e preciosos para aqueles que “lidam com gente”, apontando várias questões relacionadas à liderança. É mestrando em Organizational Leadership pela Azusa Pacific University, EUA; MBA pela Fundação Dom Cabral, com concentração em gestão de pessoas. Também é especialista em liderança pelo Haggai Advanced LeadershipInstitute (Cingapura), em Projetos de Transformação Organizacional nos Estados Unidos e Europa e em Change Management na ODR-USA.

POVOS – Você acredita que os líderes são os grandes responsáveis pelo sucesso e fracasso das organizações? 
EDUARDO CUPAIOLO – Sim, acredito. Liderança, como a entendo, é muito mais responsabilidade do que privilégio. Qualquer pai de família compreenderá facilmente o que afirmo. Garantir o sustento material, espiritual e os alicerces morais dos seus é uma tarefa árdua, compensada pelos resultados e, eventualmente, pelo pequeno poder de ficar com o controle remoto da televisão por alguns minutos a mais do que os demais. Os líderes de uma organização, e aqui estamos falando de líderes sob o ponto de vista de posição hierárquica, definem, com sua postura, com suas escolhas, com o que dizem e como dizem, o modus operandi da microcultura da sua organização. Se com isto apenas acumulam mais e mais poder para si mesmos, em vez de desenvolver o potencial de cada um dos indivíduos que compõem sua organização, estão cavando sua sepultura. O líder, porém, que investe no outro e no desenvolvimento dos seus talentos está dando à organização, além de vivacidade no presente, vitalidade para o futuro.

Entre os conselhos que apresenta em seu livro, você diz que “liderança é muito mais e muito menos do que se imagina”. Você tem uma definição que julga ser a mais correta para liderança?
De maneira bem simples, liderança é o exercício de influenciar o outro. Minha definição, um pouco mais ampla e profunda, é que liderança é o impacto da minha biografia na biografia do outro, e vice-versa. Quando dois seres humanos se relacionam, causam sempre uma “interferência” na trajetória de vida do outro. Uma simples palavra, um sim ou um não, pode alterar completamente a biografia de uma pessoa. Todos nós passamos por esses “pedágios” na vida. Se meu pai tivesse me deixado ir naquela viagem, se aquela moça tivesse dito “sim”, se meu chefe tivesse aprovado aquele projeto, etc. Mas liderança não é aplicável apenas a grandes momentos, mas também e  principalmente a cada instante. Um bom-dia pode iluminar uma vida deprimida. Um abraço, um copo de água e um minuto de atenção têm o mesmo poder. Liderança, ou traduzindo a idéia, o poder de influenciar e ser influenciado, é uma habilidade intrínseca a todo ser humano (não apenas a alguns iluminados, como muitos pensam). É um presente divino concedido a cada um de nós e que deve ser utilizado com extremo cuidado.

O que as igrejas têm a ensinar às empresas sobre liderança? Há algo que, na prática, verdadeiramente, estamos à frente?
 Muito. Peter Drucker, o admirável pai da Administração Moderna, já nos alertava que as organizações devem se relacionar com seus colaboradores como se fossem voluntários de uma organização sem fins lucrativos. Nesse sentido, as igrejas têm um currículo invejável. Estamos nesta há séculos. Nossos membros, além de voluntários, são mantenedores financeiros do projeto. Ou seja, trabalham de graça e ainda pagam para trabalhar. A questão é saber até que ponto estamos (nós, igrejas) aproveitando bem a vantagem de sermos quem mais e há mais tempo entende sobre como lidar com voluntários. Particularmente, acho que ainda temos muito a aprender. Saímos na frente, mas pode ser que estejamos perdendo caminho para outras instituições que têm sabido aprender mais rápido. Nada nem ninguém deveria ter tomado o lugar da igreja na responsabilidade de cuidar do próximo.

Há alguma tendência do mundo empresarial em relação à liderança e gestão de pessoas que deve ter a atenção dos líderes cristãos (alguma estratégia que a igreja, como organização, possa incorporar)?
 Acredito que, nesse sentido, estamos todos no mesmo barco. Explico. Todas as organizações lidam com gente. Não existem igrejas sem gente, assim como não há supermercados nem empresas de tecnologia sem gente. No entanto, penso que, de uma maneira geral, as empresas têm, ainda que sejam muitas, demonstrado, apenas por meio de discurso, uma preocupação maior com as pessoas. Incluindo no termo não somente seus colaboradores, mas também clientes, fornecedores, parceiros e o restante da sociedade como um todo. Não podemos dar todo o crédito para as empresas. E todos temos causado esse tipo de pressão no ambiente de negócios. Queremos mais respeito, maior qualidade, melhor informação e disposição para que possamos ouvir as nossas próprias queixas e sugestões. E o mercado está aprendendo isso, e bem mais rápido que as igrejas.
Focar o ser humano me parece ser parte essencial ao propósito de uma igreja. Mas o que é parte central, por vezes, vira acessório. O espetáculo é montado, luzes, som, poltronas confortáveis, discurso entusiasmado, eletrizante, mas a mim, indivíduo, com necessidades específicas, carência de toque pessoal, de atenção, pouco ou nada se oferece. Cristianismo, Jesus demonstrou inúmeras vezes, é serviço a varejo que transformamos em serviço por atacado.

Relacionamento, mais do que nunca, parece ser a palavra-chave para as organizações. Com as igrejas não é diferente. O que um líder precisa saber e fazer para alcançar um bom relacionamento com sua equipe ministerial?
Quando focalizamos os relacionamentos, temos a impressão de que estamos tratando de um problema, quando, na verdade, já reflete parte da solução. Vale considerar que o efeito mais pernicioso do pecado é a quebra de relacionamentos. Primeiro o nosso com Deus, depois, por conseqüência, o nosso com os demais e, por último, o nosso com nós mesmos. Restauração e salvação passam, portanto, pela recuperação da nossa capacidade de nos relacionarmos de forma sadia.
Respondendo mais diretamente o foco de sua pergunta, o líder precisa primeiro entender a importância do tema. Há muitos líderes que fizeram teste psicológico e descobriram, para sua total satisfação, que são voltados às tarefas. “Ufa, assim não tenho de lidar com as pessoas”. Nada mais triste e errado. Teste nenhum nos autoriza a negligenciar as pessoas, e isso implica, necessariamente, nos relacionarmos com elas. E, certamente, um dos grupos de pessoas mais importantes para o desenvolvimento de relacionamentos profundos e sadios é o do líder com sua equipe ministerial, e entre seus membros.
A figura do cavaleiro solitário ainda polui a mente de muitos líderes que acham que devem derrotar sozinhos os dragões e terminarem o filme com sua silhueta contra a luz seguindo para o poente. Isso é coisa de Hollywood e não da Bíblia (por mais divina que a palavra holly seja).
O que um líder, qualquer um, pastor, empresário, técnico de futebol ou pai, precisa saber é que liderar é uma tarefa muito árdua para uma só pessoa. Jesus escolheu um time e se relacionou intimamente com ele. Mas acho uma boa idéia não tentar reinventar essa roda.

Você acredita que é possível que as igrejas, ainda que pregando e ensinando a Palavra de Deus, possam parecer organizações frias, sem vida e sem impacto nos relacionamentos e na vida das pessoas?
Bom, acho que todo mundo acha. Aliás, caso não achassem, não me fariam esta pergunta. Pior. Acho que todo cristão, com alguns anos de experiência em igrejas locais, infelizmente, já viveu situações como essas. Triste é perguntarmos a nós mesmos como isso é possível. E a resposta imediata será: afastamo-nos dos planos e da vontade de Deus para a igreja.
Em um artigo do livro Síndrome de Michelangelo trato desse assunto. Muita forma e pouco conteúdo. Gente preocupada apenas com números. Quantos convertidos esta noite? Quantas mãos levantadas? Quantos membros tem a sua igreja? Tudo muito parecido com o lado mais perverso do ambiente de negócios. Quanto faturamos no mês passado? Quantos vamos demitir este mês? Quantas peças com defeito?
Normalmente, essas igrejas também estão profundamente preocupadas com a estrutura. Todas elas. A de tijolos e a de poder. Organograma mais bonito e muito maior do que o da IBM. Têm chefe do chefe, do chefe, do encarregado, do subencarregado, do líder, do assistente, do subassistente... E o mais importante é estar no organograma. Já cheguei a sonhar com o dia em que todos os prédios de igrejas foram subitamente acometidos por um terremoto localizado. Nenhuma casa vizinha fora afetada. Nenhuma vida fora perdida. Ninguém se ferira. Mas os prédios das igrejas não existiam mais. Nenhum deles. Tínhamos, então, voltado à essência. Voltáramos a nos relacionar uns com os outros. Repartindo o pão, de casa em casa, orando e servindo uns aos outros, como na Igreja primitiva.

Assim como as outras organizações, as igrejas também precisam “personificar a visão”, mas, para isso, necessitam do comprometimento de seus membros e colaboradores (líderes, voluntários, funcionários, etc.). Como alcançar esse comprometimento?
A sua pergunta já traz a resposta. Personificar a visão. Agir como se prega. Discurso sem prática é fé sem obras. Morto e morta. Como Agostinho nos ensinou, há centenas de anos, devemos pregar o evangelho, mas só usarmos as palavras como um recurso útil. Vivemos, hoje, uma crise nacional de moral e ética sem precedentes (quisera estar errado). E só vamos mudar vidas, igrejas e a própria sociedade se mudarmos a nós mesmos. Líderes comprometidos com os valores e as práticas do reino. Só eles serão capazes de conquistar o coração de suas equipes. Compromisso revelado nas menores e mais sutis das ações cotidianas. Lembro, por exemplo, de Bill Hybells confessando que Deus o incomodara por estar usando selos pagos pela Willow Creek em sua correspondência pessoal. Integridade é isso: 20 cents ou 1 milhão de dólares, tanto faz, para Deus o que vale é o caráter do homem.
No livro, começo um artigo, sugestivamente batizado de “Sepulcros caiados”, com uma história que demonstra como alguém pode ter uma vida publica tão imensamente diferente da privada. A palavra de ordem é: integridade! As nossas ações falam muito mais alto que os nossos discursos.

Em entrevista recente, você afirmou que “nem todos poderemos ser os melhores, mas todos podemos melhorar”. Que conselho você deixaria para aqueles líderes que desejam “melhorar” e rever sua postura diante dos liderados?
Humildade.

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• O estresse do ministério pastoral
 
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